Quando os diásporos são vestígios: estudo de caso no sul do Brasil

Evandro Gomes Da Silva, C. A. Mondin

Resumo


Um cadáver humano com sinais de violência física foi retirado das águas do Lago Guaíba, próximo à zona portuária do cais central em Porto Alegre. A vítima trouxe, aderidos às vestes, vestígios de vegetais terrestres, entre outros achados de interesse criminalístico. O exame mais apurado do material vegetal revelou tratar-se de um tipo de “pega-pega” e outra espécie de “carrapicho”, ambos aderidos na face externa do terço superior das calças. Tais estruturas eram pequenos frutos secos, que possuem cerdas ou ganchos utilizados para adesão aos pelos de animais, ou, eventualmente, ao tecido das roupas humanas. Algumas plantas apresentam tal estratégia para disseminação de suas sementes, chamada de dispersão epizoocórica. Conhecendo tal mecanismo de propagação das plantas que geram diásporos, o endemismo e tendo dados de ocorrência das espécies identificadas, poderíamos inferir onde teria sido o local original de violência contra a vítima, que foi localizada boiando no canal de navegação do Guaíba. Elaborado a partir de um caso real, conhecimento taxonômico e pesquisa bibliográfica, o presente trabalho busca dar subsídios para o reconhecimento de diferentes espécies de plantas produtoras de diásporos no âmbito forense, relacionando a identificação da espécie à zona de distribuição e de ocorrência. O caso estudado destaca a epizoocoria no contexto da botânica forense, além disso, salienta a imprescindível interação de peritos criminais com botânicos taxonomistas na correta identificação dos vestígios, para que tais conhecimentos possam servir como mais uma ferramenta na elucidação de crimes.

Palavras-chave


Botânica Forense; Epizoocoria, Dispersão; Local de Crime

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DOI: http://dx.doi.org/10.15260/rbc.v6i2.159

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