Análise das lesões promovidas por armas de ar comprimido em aves silvestres no nordeste do Brasil

Luana Thamires Rapôso da Silva, Natalia Costa Teixeira dos Santos, Yuri Machado Valença, Tatiana Clericuzi de Barros e Silva, Nathalia Lígia Gouveia da Silva, Fábio Guerra Maschka, Andrea Alice da Fonseca Oliveira

Resumo


Objetivou-se avaliar os traumas ocasionados por armas de ar comprimido em aves silvestres procedentes do Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS-Tangará) localizado em Recife, Pernambuco, Brasil. Foram analisadas 25 aves silvestres com lesões sugestivas de projétil balístico. As lesões foram fotodocumentadas, caracterizadas externamente de forma comparada à traumatologia humana, quanto ao seu aspecto macroscópico, qualificadas quanto à natureza em leve, grave ou lesão corporal seguida de morte. Das espécies analisadas destacou-se a Rupornis magnirostris, correspondendo a 60% (15/25) das aves. Na caracterização macroscópica das lesões 96% (24/25) das aves apresentavam lesões perfurocontusas compatíveis com projétil balístico, associada a essas foi evidenciada a presença de lesões contusas: hematomas e fraturas em 50% (12/24) das aves analisadas, unicamente hematomas em 29,17% (7/24) e fraturas em 20,83% (5/24). Quanto à natureza das lesões, 48% (12/25) das aves apresentaram lesões classificadas em graves, 44% (11/25) leves e 8% (2/25) em lesão corporal seguida de morte. Em uma avaliação posterior foi constatado o óbito em 56% (14/25) das aves durante ou pós-tratamento e 44% (11/25) receberam alta clínica, porém deste efetivo 36,36% (4/11) apresentaram comprometimento de funções e apenas 28% (7/11) estavam aptas a retornarem a natureza. Projéteis procedentes de armas de ar comprimido promovem em aves, de forma geral, lesões graves que determinam na maioria das vezes o óbito ou mutilação dos animais. O uso dessas armas gera preocupação no que concerne à conservação de espécies silvestres, promovendo perda de biodiversidade, maus tratos e apresentando potencial ofensivo para outros animais, inclusive humanos.


Palavras-chave


caça esportiva, chumbo, medicina veterinária legal, maus tratos.

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DOI: http://dx.doi.org/10.15260/rbc.v9i1.438

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